Departamento
de Geografia - Universidade Estadual de Maringá
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| Volume 7 Número 1 | Jan/Fev/Mar 2003 |
ISSN
1415-0646
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| TITULO | MODELO PEDAGÓGICO DE APOIO AO ENSINO DE CARTOGRAFIA: ELABORAÇÃO E FUNCIONABILIDADE |
| AUTOR | MSc. Claudia Regina Grégio d'Arce Filetti |
| ENDEREÇO | Doutoranda pela (UNESP) Universidade Estadual
Paulista – Presidente Prudente - SP
e-mail: filetti@onda.com.br |
RESUMO
A cartografia tem cada vez mais reafirmado sua importância, e seu estudo desde o princípio da escolaridade é que diferenciará o futuro usuário que compreenderá o mapa que verá daquele que o verá, porém, não o compreenderá. É importante que as crianças assimilem todas as etapas da construção dos mapas e dentre as etapas, os levantamentos que geram as bases topográficas. O levantamento aerofotogramétrico desperta a atenção das crianças, pois a foto é um material palpável, atrativo e muito representativo. No entanto, elas possuem dificuldade no seu entendimento, uma vez que os professores do ensino fundamental contam, normalmente, apenas com figuras ilustrativas deste levantamento. Este trabalho mostra a elaboração de um modelo de simulação de levantamento aerofotogramétrico. Apresentando-se como recurso didático para professores de todas as séries do ensino fundamental, possibilita às crianças a compreensão desse levantamento, bem como o entendimento de conceitos como escala, altitude, curvas de nível, planos de referência de nível, dentre outros. Tais conceitos são transmitidos respeitando o desenvolvimento cognitivo da criança. Este modelo consiste da combinação de uma maquete, de local que se queira trabalhar, com um sistema de projeção de luz e utiliza material barato e de fácil aquisição.
ABSTRACT
The cartography has reaffirmed its importance each day, and its study since the beginning of school can differentiate the future reader who will comprehend the map from that who will see but not comprehend it. It’s important that children assimilate all the stages of the construction of the maps and, among the stages, the risings that generate the topographical bases. The aerophotogrammetric survey attracts the children's attention, because the photo is a tangible, attractive and very representative material. However, they present difficulties to understand it, since the teachers of the elementary school usually make use of only illustrative pictures of that rising. This paper shows the elaboration of a model of aerophotogrammetric survey simulation. Offered as a didactic resource for teachers of all the years of the elementary school, it facilitates the understanding of that rising by the children, as well as the understanding of concepts like: scale, altitude, level curves, plans of level reference, among others. These concepts are transmitted respecting the child's cognitive development. This model consists of the combination of a scale model of the place to be worked. This model has a system of light projection and requires cheap material that can be easily acquired.
Palavras Chave: Modelo, pedagógico, levantamento, aerofotogramétrico,
A educação para leitura de mapas deve ser entendida como o processo de aquisição, pelos alunos, de um conjunto de conhecimentos e habilidades, para que consigam efetuar a leitura do espaço, representá-lo e desta forma construir os conceitos das relações espaciais. (Passini, 1994)
A cartografia refere, de um modo geral, à elaboração
de mapas que são expressões gráficas representadas
por uma linguagem que sintetiza informações, expressa conhecimentos
e estuda situações, sempre envolvendo a idéia de produção
do espaço, porém, a educação cartográfica
sofre, dentre muitos fatores, com a carência de material cartográfico
na maioria das escolas. O aprendizado se torna deficiente e leva o aluno
a desinteressar-se pelo conteúdo. Francischett (1997) aponta sua
angústia quando em uma pesquisa realizada em 1993 com alunos do
Ensino Médio, os resultados revelaram, segundo a autora, que estes
"não gostam, não usam e acham que não precisam de
mapas".
Simielli (1999) apresenta uma estruturação minuciosa
de proposta de ensino de cartografia para o ensino fundamental e para o
ensino médio. Tal proposta inicia oferecendo elementos às
crianças de primeira a quarta séries do ensino fundamental
ou de níveis que necessitem de alfabetização cartográfica,
que possibilitem a compreensão dos processos necessários
para a realização das representações gráficas,
sobretudo os mapas. Afirma a autora: "A idéia é educar o
aluno para a visão cartográfica".
A mesma autora aproveita do interesse natural da criança
pelas imagens para atingir o objetivo acima citado e sugere a oferta de
inúmeros recursos visuais, desenhos, fotos, maquetes, plantas, mapas,
imagens de satélites, figuras, tabelas, jogos e representações
feitas por crianças, acostumando o aluno à linguagem virtual.
Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), nota-se o
interesse em recursos didáticos que integrem os alunos com a linguagem
cartográfica, desde o primeiro ciclo do ensino fundamental. O início
do processo de construção da linguagem cartográfica
acontece mediante o trabalho com a produção e a leitura de
mapas simples, em situações significativas de aprendizagem
nas quais os alunos tenham questões a resolver, seja para comunicar,
seja para obter e interpretar informações. E como na construção
de outras linguagens mesmo inicialmente não se deve descaracterizá-la
nem na produção, nem na leitura. É importante, assim,
que o professor do 1º ciclo do ensino fundamental trabalhe com diferentes
tipos de mapas, atlas, globo terrestre, plantas e maquetes – de boa qualidade
e atualizados - mediante situações nas quais os alunos possam
interagir com eles e fazer um uso cada vez mais preciso e adequado deles.
Os modelos reduzidos trazem às crianças a materialização
de espaços reais que propiciam conceitos muitas vezes por elas não
compreendidos, uma vez que, crianças do primeiro ciclo do ensino
fundamental ainda apresentam nível de abstração em
desenvolvimento, necessitando de visualização para compreendê-los.
Por
exemplo, o conceito de rotação e translação
da Terra, eclípse solar e lunar, dentre outros.
Em um trabalho realizado com um grupo de alunos da terceira série
do ensino fundamental deuma escola em Maringá, estado do Paraná,
Brasil onde orientando na construção de um modelo reduzido
do sistema solar, quando da construção do planeta Terra,
onde estes pintavam sobre uma esfera de isopor os oceanos e continentes,
uma das crianças me questionou sobre como os homens sabiam que o
Brasil tinha aquele formato. Remeti a pergunta a eles e obtive algumas
respostas como:
“Os homens que foram para a lua tiraram fotos e depois copiaram”.
" Minha tia disse que os contornos são copiados de fotos tiradas
de avião".
Em uma tentativa de explicar simplificadamente a eles como são
realizados os levantamentos aerofotogramétricos, percebi que apesar
do grande interesse das crianças e do esforço que faziam
para compreenderem como o vôo era realizado, somente com os desenhos
e as figuras apresentadas, elas não conseguiram.
Pensei, então, em elaborar um modelo que simulasse um
levantamento aerofotogramétrico, ajudando na compreensão
do mesmo mas que também auxiliasse no entendimento de conceitos
como escala, altitude, projeção vertical, projeção
oblíqua, curvas de nível, planos de referência de nível,
dentre outros.
Tal modelo, combina uma maquete de local que se queira trabalhar com
um modelo de projeção de luz utilizando material barato e
de fácil aquisição.
ELABORAÇÃO DO MODELO DE SIMULAÇÃO DE UM LEVANTAMENTO AEROFOTOGRAMÉTRICO
O modelo de simulação de um levantamento aerofotogramétrico
consiste da composição de uma maquete de local que se queira
trabalhar com um modelo de projeção de luz, realizado em
duas etapas:
Na primeira etapa, elaborou-se um modelo reduzido (maquete) de
uma área da Universidade Estadual de Maringá em escala horizontal
1:1000 e escala vertical 1:400. Tal modelo possui seu relevo reproduzido
em isopor, a partir da planta desta área da Universidade citada.
Para isso, adotou-se a metodologia apresentada por Simielli(1). É
importante salientar, que propositadamente, gerou-se o efeito de continuidade
do relevo, somente em uma meia parte do relevo do modelo reduzido, deixando
a outra metade em degraus, o que torna o entendimento do conceito de curva
de nível mais fácil.
Sobre este relevo, reproduziu-se os elementos naturais e artificiais
pertencentes à área trabalhada. Foram elaboradas miniaturas
das edificações, cobertura vegetal, vegetação
arbustiva isolada ou aglomerada (bosque), ruas, passarelas e rede elétrica.
Procurou-se trabalhar com materiais baratos ou sucateados, como exemplo:
para as edificações utilizou-se isopor, tinta escolar, papel
e caneta hidrográfica de ponta fina; para a cobertura vegetal e
vegetação arbustiva utilizou-se pó de serra, tinta
escolar cola de isopor e palito de dente; para as ruas e passarelas utilizou-se
novamente tinta escolar e arame para artesanato; para a rede elétrica
utilizou-se agulha de costura, fio de pesca e arame para artesanato.
A escala trabalhada (1:1000), permitiu que as características
principais de cada elemento pudessem ser representados, obtendo-se como
resultado final, uma representação próxima do real(2).
Este modelo reduzido gerado encontra-se sobre duas placas de
isopor. A primeira, logo abaixo do modelo reduzido; representa um plano
de referência de nível local, pintada com tinta marrom, possuindo
40mm a mais de largura que o modelo reduzido, distribuídos 20mm
de cada lado no momento da colagem. A segunda placa, abaixo da primeira,
representa o plano de referência de nível nacional (nível
médio dos mares), sendo pintada de azul e possuindo 40mm a mais
de largura que a primeira, também com 20mm distribuídos de
cada lado no momento da colagem.
Estas duas placas ajudam na compreensão dos conceitos:
altitude, altitude de vôo e cota altimétrica. A Fig.1 mostra
a foto do modelo reduzido gerado.
Fig. 1 Foto do modelo reduzido de uma área da Universidade Estadual de Maringá
Na segunda etapa elaborou-se o modelo de projeção de luz.
Este consta de um suporte composto por uma base retangular de madeira compensada
de 4mm de espessura, com dimensões de 700mmx450mm, presa pelas extremidade
do seu comprimento por duas bases de madeira de 450mm de comprimento x
20mm de largura x 120mm de altura. Estas duas bases de madeira, possuem
uma fenda de 350mm de comprimento x 10mm de largura x 60mm de profundidade.
Nestas fendas são encaixadas quatro hastes de madeira de 10mm de
largura x 12mm de comprimento x 400mm de altura (duas em cada base). O
encaixe das hastes, pode variar de posição dentro das fendas,
porém, mantendo-se sempre duas a duas, formando dois alinhamentos
paralelos à direção do comprimento.
À estas hastes, foram fixados dois ganchos, um a 10mm e outro
a 110mm da sua extremidade superior e nestes ganchos prendem-se os trilhos
por onde o sistema de projeção de luz se move. Tais trilhos
foram elaborados utilizando-se tubo de PVC de 0.5 polegadas com 700mm de
comprimento. Nestes tubos foram abertas fendas com 5mm de espessura, por
onde se desloca o sistema de projeção de luz.
Este sistema consiste de 4 compartimentos cúbicos feitos em
isopor, com dimensões 40mm x 40mm x 40mm, onde um dos lados não
foi fechado com isopor, porém, em sua abertura foi fixado um filtro
colorido (verde, vermelho, azul e amarelo respectivamente para cada compartimento).
No lado oposto a este, foi fixado uma pequena esfera (imitação
de pérola encontrada em armarinhos ou casas de artesanato), que
inserida nas fendas dos trilhos, permite o deslocamento de cada compartimento.
No interior destes, há uma lâmpada (de lanterna) que projeta
pela extremidade com filtro, um feixe de luz colorido e com formato quadricular.
A Fig. 2 mostra a foto do modelo de projeção de luz.
Inserindo o modelo reduzido no modelo de projeção de
luz, temos o modelo de simulação de um levantamento aerofotogramétrico,
como mostra a foto da Fig. 3.
Fig. 2 - Foto
do modelo de projeção de luz.
Fig. 3 - Foto
do modelo de simulação de um levantamento aerofotogramétrico.
FUNCIONABILIDADE DO MODELO
A finalidade principal deste projeto foi elaborar um modelo, com materiais
baratos e de fácil aquisição, para levá-lo
às escolas da rede fundamental de ensino e expor aos professores,
passo a passo, a sua elaboração, bem como transmitir sua
importância no entendimento dos levantamentos aerofotogramétricos.
Pode, também, ser utilizado na compreensão de muitas outras
informações de grande valia no aprendizado de conceitos como
escala, projeção, curva de nível, dentre outros, conceitos
esses que no futuro favorecerão uma melhor compreensão na
leitura de mapas.
Para isso, na sua construção, foram inseridos detalhes
que facilitam o entendimento de alguns desses conceitos como por exemplo:
ter elaborado, lado a lado, uma metade do relevo do modelo em degraus (curvas
de nível) e a outra metade com efeito de continuidade, ou seja,
cada curva possui metade de sua representação em degraus
e a outra metade com a
suavização dos degraus feita com massa corrida.
Esta materialização das curvas de nível, como "cortes"
no relevo (esta é a visão que a criança cria, de um
lado o relevo, do outro cortes feitos nele) ajuda no compreensão
do significado do conceito curva de nível, das características
destas curvas e também na visualização dessas representações
nos mapas.
Outro detalhe, também já citado, foi a fixação
do modelo reduzido sobre duas placas de isopor que correspondem ao plano
de referência local e ao nível médio dos mares respectivamente.
A materialização destes planos, contribuem para a compreensão
dos conceitos de cota altimétrica, altitude do terreno e altitude
de vôo.
O modelo em geral transmite às crianças que:
- Os vôos são realizados seguindo linhas de vôo pré
definidas, materializadas no modelo pelos trilhos presos às hastes
de madeira.
- Estas linhas de vôo possuem determinado distanciamento (superposição
lateral), mostrado pelo deslocamento das hastes de madeira pela fenda da
base de madeira.
- A altitude de vôo é variável, e esta variaçao
é dada pelos ganchos fixados nas hastes de madeira em duas alturas,
como dito na descrição.
- Necessita-se de mais de uma foto para se ter todo o terreno fotografado,
já que cada foto abrange pequena porção de toda a
área a ser fotografada. A região abrangida pelas fotos é
materializada quando se acende cada compartimento do sistema de projeção.
- As fotos do terreno são tiradas seguindo uma seqüência,
materializada pelo acendimento dos compartimentos nesta seqüência
e com certo distanciamento entre elas (superposição longitudinal),
dado pela variação da posição dos compartimentos
no trilho.
Outro conceito que pode ser trabalhado é o de escala. Quando
se altera a altitude de vôo, a projeção quadricular
diminui ou aumenta de tamanho, mais ou menos elementos comporão
as fotos. Pode-se complementar este trabalho de escala, com fotos verticais
que correspondam as projeções quadriculares nas duas altitudes
de vôo do modelo. Assim, as crianças podem visualizar os elementos
que compõe as fotos nestas altitudes de vôo do modelo, e relacionar
que quanto maior a área fotografada, menor o tamanho dos elementos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O modelo apresentado é uma composição de efeitos
visuais com a materialização de elementos reais ou abstratos.
Analisando sua funcionabilidade e o nível crescente de abstração
das várias etapas de vida do ser humano, nota-se que o modelo pode
ter seu uso direcionado, desde o ensino fundamental, até o ensino
superior. Porém, será inicialmente trabalhado em todas as
séries do ensino fundamental, de maneira diferenciada (respeitando
o nível de abstração das crianças), buscando
efetivar sua eficiência na compreensão, desde a simples visualização
do que é uma foto vertical e como ela é tirada (crianças
de 6 a 8 anos), acrescentando conceitos como escala, altitude, curvas de
nível para crianças de 9 a 11 anos, até o entendimento
de toda a funcionabilidade citada anteriormente, para crianças de
12 a 14 anos).
Posteriormente, o modelo será apresentado a alunos do
curso superior, porém serão acrescentadas funcionabilidades
que não foram citadas no item anterior, como por exemplo: O estudo
de diminuição ou aumento das superposições
por conseqüência de mudança do relevo, estudos pertinentes
ao planejamento de vôo, dentre outros estudados na disciplina aerofotogrametria.
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Notas
(1) Maria Elena Simielli. Do Plano ao Tridimensional: A Maquete como
Recurso Didático. 1992.
(2) A maquete foi elaborada o mais próximo do real que os materiais
e a escala permitiram, isso para nos auxiliar num próximo projeto
que mostrará às crianças as etapas para se chegar
a um mapa (o real representado pela maquete; o vôo, representado
pelo modelo como um todo; as fotos que serão tiradas do modelo e;
a representação final da maquete (planta).